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quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Marcelo Jeneci "De Graça" (2013)

(Foto: Reprodução da internet)
Segundo álbum de Marcelo Jeneci, De graça roça a perfeição pop em repertório que atinge o mesmo alto nível de inspiração do primeiro CD do artista paulista, Feito pra acabar, um dos melhores discos de 2010. Como já havia sinalizado a música-título De graça (Marcelo Jeneci e Isabel Lenza), delícia pop que remete a Caetano Veloso e à efervescência rítmica da fase áurea da música afro-baiana rotulada como axé music, a safra do disco - produzido por Kassin com Adriano Cintra de copiloto - tem cacife para seduzir grandes públicos. A tal perfeição pop - buscada por muitos, mas atingida eventualmente por poucos como Jeneci - molda canções irresistíveis como Temporal, tema composto por Jeneci com Isabel Lenza, nome recorrente na ficha técnica do álbum, parceira de seis das 13 inéditas. Solar, Temporal enxerga luz no fim da tempestade. Disco inspirado pelo fim do casamento de Jeneci, De graça ressalta o valor das coisas boas e simples da vida, até por reconhecer a fragilidade da existência humana, tema de A vida é bélica (Marcelo Jeneci e Isabel Lenza), faixa que exemplifica o flerte do artista com o universo do pop rock entre versos como "O nosso peso é relativo à situação / Nossa leveza é compatível à imensidão". Tal flerte roqueiro sustenta a leveza de Nada a ver (Marcelo Jeneci), outra canção de perfeito acabamento pop.
(Foto: Reprodução da internet)
Contudo, os majestosos arranjos orquestrais do disco encorpam parte do cancioneiro de Jeneci em De graça, impedindo que o CD se limite a oferecer um punhado de hits em potencial (o que já seria um feito digno de aplausos e elogios numa época em que a geração pop brasileira caminha em contínuo descompasso com as massas). Já na primeira faixa - Alento (Marcelo Jeneci e Isabel Lenza), cujos versos receitam a música como o bálsamo capaz de aliviar as atribulações cotidianas - as cordas orquestradas pelo maestro norte-americano Jherek Bischoff sinalizam que, além da perfeição pop, o artista também buscou outros sentidos e sons neste disco. Tais orquestrações encorpam o som da música de Jeneci, sobretudo quando entra em cena o pianista brasileiro Eumir Deodato, arranjador de cinco faixas. Com maestria, Deodato faz com que suas cordas interajam harmoniosamente com a delicadeza da canção Tudo bem, tanto faz (Marcelo Jeneci, Laura Lavieri e Arnaldo Antunes), uma das duas músicas soladas por Laura Lavieri neste disco em que a sintonia dos vocais de Lavieiri com a voz de Jeneci contribui muito para o alcance da tal perfeição pop em faixas como O melhor da vida (Marcelo Jeneci e Luiz Tatit), tema de atmosfera leve que prega o bem-viver ("O que vale nessa vida é ver como você aproveita / Desde a hora que levanta até a hora que deita"). O outro solo de Lavieri acontece em Pra gente se desprender (Marcelo Jeneci e Isabel Lenza), música cheia de camadas, adensada de forma sublime pelas cordas orquestradas por Deodato. Tal densidade já havia sido sinalizada na faixa anterior, Um de nós (Marcelo Jeneci), canção que expia com resignação a dor da separação, com ciência de que um novo amor virá, como explicitado em letra da citada Pra gente se desprender entre versos como "E a cada ponto final / A história vai repetir / A gente é mais que um plural / E a vida é muito mais / Que a gente espera". Deodato reitera sua maestria ao arranjar a música que encerra o disco, 9 luas (Marcelo Jeneci e Raphael Costa), como peça sinfônica que atinge o céu em atmosfera etérea.

(Foto: Reprodução da internet)
Cada vez mais desenvolto como cantor (ainda que seu canto remeta ocasionalmente ao de Caetano Veloso, como em Sorriso madeira, canção de espírito pop tropicalista feita sem parceiro), Jeneci leva sua voz para regiões mais altas em 9 luas, fecho sublime para um disco que o confirma como um dos grandes compositores brasileiros do século XXI. As influências retrôs - Jovem Guarda, Caetano Veloso e até doo-wop, evocado na arquitetura de Julieta (Marcelo Jeneci e Isabel Lenza) - estão todas lá, reprocessadas antropofagicamente com linguagem contemporânea sem anular a personalidade de Jeneci como excepcional compositor. "Além de mim / Não tem ninguém / Que seja eu",  sentencia o cantor, enfatizando a individualidade humana com reforço de coro festivo, em Só eu sou eu (Marcelo Jeneci e Arthur Nestrovisk), outra delícia pop deste álbum (patrocinado pelo projeto Natura Musical) que chega às lojas em novembro - em edição do selo Slap (da gravadora Som Livre) - já se impondo como um dos grandes discos deste ano de 2013.


Tracklist do álbum:
1. Alento
2. De Graça
3. Temporal
4. Tudo Bem, Tanto Faz
5. Nada a Ver
6. A Vida é Bélica
7. O Melhor da Vida
8. Um de Nós
9. Pra Gente Se Desprender
10. Julieta
11. Sorriso Madeira
12. Só Eu Sou Eu
13. 9 Luas

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