INÍCIO

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Daniela Mercury & Cabeça de Nós Todos (2013)

Foto: Margarida Neide
Negra demais no repertório e no coração apaixonado, Daniela Mercury celebra o canto da diversidade afetiva e musical em álbum de estúdio gravado em 2012 com o grupo baiano Cabeça de Nós Todos e lançado neste último trimestre de 2013, um ano após sua gênese e feitura. "Qualquer maneira de amor vale o canto", determina a cantora através de verso de Paula e Bebeto (Caetano Veloso e Milton Nascimento, 1975), regravação que adquire sentido especial no disco dedicado pela assumida Daniela à sua companheira Malu Verçosa. Com capa que exibe ilustração do artista plástico Herbert Loureiro, o CD Daniela Mercury & Cabeça de Nós Todos traz a cantora de volta à reativada gravadora Eldorado, companhia por onde debutou na carreira solo, em 1991, com disco que mostrou a cor negra do swing e do canto caloroso da menina baiana, hoje senhora de carreira que vem sendo pavimentada em trilhos já independentes. O samba dita o ritmo do repertório essencialmente inédito, mas o iê iê iê pop romântico Sei lá (Aila Menezes, Leonardo Reis, Emerson Taquari, Mikael Mutti e Sérgio Rocha) - alocado já na abertura do disco - sinaliza que o canto de Daniela já pode ser de qualquer tempo ou lugar. Chato flash nostálgico de amor de juventude, Carteira de estudante (Leonardo Reis, Magary Lord e Peu Meurray) reabre a cortina do passado afetivo com suingue cool, reiterando o romantismo embutido em parte do desigual repertório com a harmoniosa combinação das vozes dos integrantes do Cabeça de Nós Todos. Sinto (Deco Simões, Emerson Taquari e Sérgio Rocha) joga cantora e grupo na praia do pop reggae. Mas é na cadência bonita do samba que o balé mulato ganha cor e movimento.


Com ginga, Tira onda (Leonardo Reis, Emerson Taquari e Peu Meurray) cai no suingue da malandragem carioca. De olho na Copa do Mundo de 2014, a ser disputada no Brasil, Neguinho maravilha (Mikael Mutti) traça no compasso do samba o perfil de garoto que vai do morro aos campos de futebol, com ritmo que acelera no pique de um passe veloz. Nesse mesmo campo, Cheia de graça (Daniela Mercury e Gabriel Póvoas) exalta a bola que corre nos gramados com suingue derivado e diluído da obra-matriz de Jorge Ben Jor. "Sou o canto da cidade", lembra Daniela em verso de Alma feminina (Aila Menezes e Mikael Mutti), música lançada pela cantora em novembro de  2012. Introduzida por berimbau, Alma feminina é samba-reggae sustentado pelo baticum do gênero que pauta a azeitada regravação de Aquele abraço (Gilberto Gil, 1969), saudação que integra os cantos das cidades de Rio de Janeiro (RJ) e Salvador (BA) ao embutir na batida do samba-reggae toques da batucada carioca, do samba-rock e do samba-funk. Já Vai ser como o rei mandar (Aila Menezes e Mikael Mutti) abre a roda para celebrar o samba da Bahia com direito à citação de Todo menino é um rei (Zé Luiz e Nelson Rufino, 1978), sucesso do cantor fluminense Roberto Ribeiro (1940 - 1996). Única faixa captada ao vivo, Couchê (Adson Tapajós, Zeca Brasileiro e Sérgio Rocha) desencava mais a raiz africana, festejando o semba herdado de Angola. Instante de menor cor e pulsação rítmica, Seda azul (Deco Simões e Karina Faria) é entoada em dueto, no tempo da delicadeza, mas culmina com o canto a capella de Daniela Mercury, artista negra demais no coração e consciente de que qualquer maneira de amor vale o canto da diversidade.
BAIXE O CD CLICANDO NA CAPA

Nenhum comentário:

Postar um comentário