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quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Ney Matogrosso - Atento aos Sinais [2013]

VIA | Notas Musicais

(Foto: Marcelo Faustini/Divulgação)
É difícil transpor para um disco gravado em estúdio, com exatidão, o clima de um show. O maior mérito do CD Atento aos sinais - o 43º título da discografia oficial de Ney Matogrosso - é refletir as estranhezas e o calor do show que está em turnê nacional desde fevereiro deste ano de 2013. Mais uma vez invertendo a ordem recorrente na indústria do disco, o cantor estreou um show, caiu na estrada, azeitou suas interpretações no palco e somente depois - em junho - gravou o álbum que a Som Livre vai pôr nas lojas no início de dezembro. Com 14 das 19 músicas do roteiro original, o CD Atento aos sinais espelha urgências urbanas, refletindo os climas do palco e também o calor das ruas. Afinal, por força das circunstâncias sociais,Incêndio (Pedro Luís, 1992) - música da Urge, extinta banda carioca de punk - se revela a trilha sonora ideal das turbulentas manifestações sociais que vem agitando o Brasil desde junho, geralmente culminando com incêndio nas ruas, como diz o refrão do tema da Urge. Fundamentais para elevar a temperatura de Incêndio, os metais em brasa de Aquiles Moraes (trompete e flugelhorn) e Everson Moraes (trombone) são uma das marcas do disco, deixando o CD em ponto de bala, sobretudo na parte inicial, quando Ney dá voz à Rua da passagem(Arnaldo Antunes e Lenine, 1999) - outra música que capta a efervescência urbana, mote do show - e ao samba Roendo as unhas (Paulinho da Viola, 1973), desconstruído entre tensões e ruídos expostos no renovador arranjo da faixa.
(Rua de Passagem "Transito" - Lenine)


A propósito: além de pilotar piano, teclados e sintetizadores, Sacha Amback assina os arranjos com a banda - integrada pelo baixista Dunga, pelo guitarrista Maurício Negão e pelos percussionistas Felipe Roseno e Marcos Suzano (também nas programações rítmicas) - e a direção musical do disco produzido por João Mário Linhares com o próprio Amback. É escorado nessa banda afiada que Ney - com seus olhos de farol que espreitam novidades, como mostra a foto de Marcelo Faustini reproduzida na expressiva capa do CD - dá voz a músicas de compositores emergentes, sem rede de proteção. O inspirado Dan Nakagawa assina a ótima Todo mundo o tempo todo (2011), reflexo da efervescência urbana cotidiana. Duas músicas do grupo carioca Tono sintonizam Ney com os tempos modernos, com doses de tecnologia e humor em Samba do blackberry (Rafael Rocha e Alberto Continentino, 2010) e de sensualidade em Não consigo (Rafael Rocha, 2010), tema ao qual foi adicionado um quinteto de cordas formado por quatro violinos e um violoncelo. Nessa músicas de teor erótico, o disco evidentemente não consegue reproduzir toda a quentura do show, pois, no palco, Ney se vale de gestos e olhares lascivos que reforçam as intenções, por exemplo, de Freguês da meia-noite (Criolo, 2011), faixa de aura intencionalmente kitsch, afinal gravada sem a cogitada participação do rapper paulista Criolo.
(Foto: Reprodução do Site Conversa de Boteco)

Mesmo assim, o CD Atento aos sinais captura atenções pelas estranhezas e pelo alto grau de novidade de um intérprete que, aos 72 anos, continua sem medo de virar o disco. O arrojo do cantor no trânsito pela cena indie atenua o fato de a inédita Beijo de imã (Jerry Espíndola, Alzira E e Arruda) soar como música menor diante da grandeza do artista, capaz de jogar luz sobre jovem rapper alagoano, Vitor Pirralho, hábil ao montar o jogo de palavras da verborrágica Tupi fusão (Vitor Pirralho, Dinho Zampier, Pedro Ivo Euzébio e André Meira). Com groove que remete ao balanço da disco music no verso"Shake it up, baby"Pronomes (Beto Boing e Paulo Passos, 2006) - pop delicioso da banda paulista Zabomba - reitera o clima efervescente de disco/show cujo repertório abre espaço para a música sempre moderna do compositor paulista Itamar Assumpção (1949 - 2003) - representado no CD por Isso não vai ficar assim (1986) e por Noite torta (1993) - e para a obra do gaúcho Vitor Ramil. Introduzida pelo piano de Sacha Amback, A ilusão da casa (Vitor Ramil) é bela canção interpretada por Ney em tempo de delicadeza (mas com tons altos ao fim) bissexta em repertório banhado em ponto de fervura. A ausência de AstronauLICANDta lírico (Vitor Ramil, 2007) no CD é sentida, mas é um dos trunfos guardados por Ney para o DVD que vai ser editado em 2014 com o registro integral de show feito sem concessões. "Eu não hei de ceder ao vazio desses dias iguais", promete Ney em verso de Oração (2010), música do artista paulista Dani Black, da qual foi extraído o título Atento aos sinais. Promessa, aliás, cumprida por mais um disco antenado e visionário de um cantor que nunca deixou sua voz cair no vazio.

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