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terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Banda do Mar - Banda do Mar (2014)

Via | MiojoIndie
Foto / Reprodução-Internet
É difícil não ser convencido pelo primeiro álbum da Banda do Mar. Projeto paralelo do casal Mallu Magalhães e Marcelo Camelo, o disco lançado em parceria com o português Fred Ferreira cresce como uma tapeçaria de sons cantaroláveis, raros e capazes de cruzar o Atlântico com velocidade, invadindo a mente do ouvinte sem grandes bloqueios. Mesmo incapaz de lançar um material verdadeiramente novo – trata-se de uma adaptação do arsenal testado em Ventura (2003) do Los Hermanos, gracejos pop vindos de Pitanga (2011) com uma pitada de Surf Music -, cada curva do disco luso-brasileiro encanta pelo tratamento dos arranjos e a forma honesta dada aos versos, formato que se estende e acompanha o ouvinte até o ecoar da última faixa.

Composto e gravado em Portugal – país adotado por Camelo e Magalhães desde 2013 -, o trabalho de essência radiante não oculta a seriedade dos próprios temas, postura explícita no caráter “libertador” carimbado em cada canção. Da expressão declamada em Me Sinto Ótima – quase uma “faixa irmã” de Velha e Louca -, ao inaugurar do disco com Cidade Nova - “Eu não deixo o tempo parar” -, todas as dobras do álbum soam como uma resposta sorridente aos que não acreditavam na união do casal de músicos, no afastamento de Camelo do Los Hermanos, ou na capacidade da cantora em crescer além do Folk pueril dos primeiros anos. Nada de rancor, apenas sorrisos.

São estes mesmos sorrisos que preenchem parte da poesia da obra e ainda garantem ritmo ao trabalho. Entre declarações de amor (Mais Ninguém) e faixas de puro descompromisso (Muitos Chocolates), o debut é um disco que flui com leveza e ao mesmo tempo energia, atingindo em cheio o espectador. É possível afirmar que desde o grito final na faixa De Onde Vem A Calma que Marcelo Camelo não soava tão liberto. Mesmo Magalhães dança pelo disco entre vocalizações crescentes, postura delineada com acerto no último disco solo, de 2011, mas ainda mais fascinante no pop batucado de Mia e outras criações do álbum. Vozes sorridentes (Pode Ser), assovios (Me Sinto Ótima) e celebração (Vamo embora), como definiu o jornalista Thales de Menezes: este é o disco mais agradável do ano.


Delineado com simplicidade, o álbum carrega nas guitarras a principal ferramenta de movimento para as faixas. Da abertura, com Cidade Nova, passando por Mais Ninguém, Hey Nana e Faz Tempo, cada instante do trabalho abre espaço para o uso dos solos versáteis de Camelo – tão enérgico quanto no primeiro álbum do Los Hermanos. São rajadas eufóricas de distorção, como no eixo final de Muitos Chocolates, instantes brandos que explodem sob controle, vide Seja Como For, além de um suingue raro, posicionamento que rompe com a serenidade da fase solo do músico – principalmente em Sou (2008) – para encontrar a mesma desenvoltura do hermano Rodrigo Amarante na fase pré-Cavalo (2013).

Em uma observação atenta, notória é a inversão de papeis entre o “sereno” Marcelo Camelo do álbum 4 (2006) e o “entusiasmado” Rodrigo Amarante que espalhou pontos de alegria dentro do sóbrio disco. Enquanto o ruivo desacelerou recentemente para tecer o ambiente sombrio do primeiro álbum solo, Camelo segue na direção contrária, “abrasileirando” tendências antes concebidas pelo Little Joy, ao mesmo em que pisa em um território há muito abandonado dentro da própria obra: o de produzir música comercial.

Foto / Reprodução-Internet
De fato, tanto o cantor quanto a esposa assumem com a Banda do Mar um projeto puramente acessível, íntimo do grande público, marca evidente logo na música de abertura. Basta ficar em silêncio depois que o disco chega ao fim para perceber a quantidade de músicas que continuam a ecoar pela cabeça. Talvez esteja aqui a sequência que grande parte dos fãs do Los Hermanos esperavam passado o sucesso de Anna Júlia, porém barrado no som complexo de O Bloco do Eu Sozinho (2001).

“Pop” no sentido mais honesto e desimpedido das melodias, a estreia da Banda do Mar tropeça apenas na reciclagem de antigos temas e vocalizações testadas em fase solo pelo casal. Ainda que a poesia abordada seja outra, nítida é a similaridade entre músicas como Pode Ser e Mais Tarde – esta última, vinda do primeiro álbum de Camelo. Mesmo o eixo final do disco e canções como Solar ou Faz Tempo surgem como adaptações do material lançado em Pitanga e Toque Dela. Experiências antigas, recentes e remodeladas que se cruzam com acerto dentro do contexto doce da banda/casal, capaz – mesmo entre pequenos deslizes – de encantar o ouvinte logo na primeira audição.

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Resenha reproduzida DAQUI

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